Ele nasceu em Aracaju. Tem 23 anos e desde os 16 trabalha no Ministério Público. Já foi estudante de Direito. É sério, determinado e muito seguro de si. Se você pensa que estou falando de mais um jovem que vai trilhar o sisudo caminho das Leis e das Letras, está enganado. Na contramão disso tudo, Heitor Andrade é um promissor ator e bailarino sergipano que se despede da terra natal para se matricular na mais tradicional escola de teatro do País: A Escola de Arte Dramática da USP. Com seis anos de carrreira, Heitor colecionou elogio na construção de personagens, principalmente dramáticos. Revelado por Newton Lucas, do Ciranda de Espetáculos, Heitor se prepara para viver uma “ ciranda de emoções” na capital paulista em 2010. Ele me deu uma entrevista muito franca. Desejo, sorte e muito sucesso e assim como outros colegas atores daqui, tenho certeza que ele fará bonito em Sampa. Vamos saber um pouco dele agora?

1) Heitor, quando você decidiu que seria ator?
Resp.: Apesar de nunca ter participado de cursos de teatro ou algo mais capacitante, sempre estive envolvido em peças teatrais no período em que estudei no Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus. Mas nada que tivesse conseguido despertar em mim este amor pelas artes cênicas, até então adormecido. Somente no ano 2001, quando ainda cursava o 2º ano do ensino médio, descobri que queria o teatro na minha vida. Não somente como um mero passatempo, mas sim como profissão mesmo. Ao assistir à apresentação da peça SENHORA, de José de Alencar, produzida pela Cia. Ciranda de Espetáculos, no Teatro Atheneu, não conseguia mais pensar em outra coisa que não fosse o teatro. Ver a estrutura de cenário, iluminação, figurino e a atuação de atores como Diane Veloso, Yára Cunha, Flávio Porto, e dos outros que compunham o elenco, fez com que abrisse em mim uma porta, um canal, talvez, para que a minha veia artística pudesse fluir. Poderia acrescentar, sem medo de ser piegas, que foi algo mágico; o que, de fato, foi. A partir deste dia, sempre comentava com os colegas de classe que seria ator, além de jornalista (rsrsrsr), o que sempre era recebido pelos outros com risos, por acreditarem ser algo impossível. Junto com uma outra amiga da turma, que tbm tinha assistido ao espetáculo, a Silvia, ligamos para o CULTART para obter informações sobre cursos de teatro, ocasião na qual foi passado pra gente o telefone de contato do produtor da Cia. Ciranda de Espetáculos, o Newton Lucas (in memorian), que também ofertava cursos e workshops de teatro. Conversamos com o Newton, na época, que nos explicou que ainda não estava previsto um novo curso, porém, o Ciranda estava em processo de montagem para o espetáculo O MÁGICO DE OZ, convidando-nos para assistir a um dos ensaios e conversar melhor a respeito de nossas intenções. Comparecemos ao ensaio, sendo permitido pelo Newton que nós acompanhassemos a Cia. durante o processo de montagem do espetáculo, todavia, não foi possível, pois as preparações aconteciam pela manhã, horário em que estávamos estudando. Optamos, então, por, assim que terminassemos os estudos, manter contato novamente com a Cia. e ver no que dava. Dito e feito: assim que concluímos o ensino médio, ligamos para o Newton e passamos a acompanhar o grupo.
2) Quais as dificuldades que você enfrentou nessa decisão?
Resp.: Para um jovem de 16 anos que acaba de terminar o ensino médio e não passa de primeira no vestibular da UFS, a cobrança é inevitável. Principalmente, quando este jovem revela para a mãe que vai fazer curso de teatro... (rsrsrsrs) No início, minha mãe não aceitou o fato. Refiro-me somente à minha mãe, porque, nesta época, meus pais já eram separados e eu não mantinha uma convivência muito harmoniosa com ele (meu pai). Minha mãe tinha muito medo de que, como alguns familiares paternos, eu virasse um "mambembe", como ela mesmo falou na época, gritando comigo: "você quer virar um mambembe de circo, é?!". Isto porque, o meu avó paterno, quando jovem, apresentava-se em circos como cantor e encenando algumas coisas e, uns tios paternos, também são artistas circenses. Ou seja, ela temia que eu não me dedicasse aos estudos e optasse por me entregar o estilo "boêmio" de vida... Mesmo sem o consentimento dela, fiz o curso com o pessoal da Cia. Ciranda de Espetáculos. O clima era horrível em casa. Ela não falava direito comigo e nem eu com ela. Mas depois as coisas foram melhorando. Sou muito determinado para as coisas que quero e luto para que elas aconteçam. Neste caso, tive que lutar para tirar este conceito ruim que existia em minha mãe e mostrar uma oura face do universo artístico.

3) Em algum momento pensou em desistir?
Resp.: Essa palavra "desistir" nunca fez parte do meu vocabulário. Pelo menos, no que diz respeito ao teatro. (rsrsrs) Sempre busquei aprender com os atores mais experientes com quem trabalhei, a exemplo da Valmir Sandes. Grande diva do teatro sergipano com quem tive a oportunidade de trabalhar em DIVA, de José de Alencar, e em ESAÚ E JACÓ, de Machado de Assis, ambas montagens realizadas pela Cia. Ciranda de Espetáculos. Recorrendo ao pouco conhecimento teórico que dispomos no nosso Estado para dar embasamento ao meu trabalho e também para provar para os meus familiares que o Teatro não é algo realizado somente no "oba-oba", mas sim uma profissão que querer um conhecimento teórico e estudos apurados.
4) O mercado de teatro em Aracaju te desestimulou?
Resp.: Desestimular não seria a palavra mais apropriada... Seria melhor dizer que o mercado de teatro de Aracaju me deixou, muitas vezes, DESCONTENTE. E, a partir deste descontentamento, descobri em mim uma vontade de buscar por coisas novas, sempre por coisas novas.
5) Como você começou no Teatro, fala um pouco da sua trajetória?
Resp.: Então, retomando um pouco o que já dito acima, após concluir o ensino médio, passei a acompanhar a Cia. Ciranda de Espetáculos e, após, iniciei um curso de teatro com eles. Durante este período, o Newton Lucas, produtor da Cia. fez-me um convite para participar da montagem de DIVA, de José de Alencar. Um personagem pequeno, através do qual teria a oportunidade de ir aprendendo na prática sobre o fazer teatral. O que de fato ocorreu. Em DIVA, tive a oportunidade de contracenar com atores como Tiago de Melo, Paola Lima, Valmir Sandes, Andresson Dias. Não foi nada fácil, como toda primeira vez. Um nervosismo sem igual tomava conta de mim a cada apresentação. Confesso que não fiz muito bem o que deveria. Sentia dentro de mim que podia fazer muito mais, só não sabia como. Durante o curso de teatro, tive aulas com o Tiago de Melo e, em um dos exercícios de interpretação, ele viu algo em mim (que não sei explicar o quê) e resolveu apostar em mim e, desde então, não parei mais de atuar no Ciranda. Além do Tiago de Melo, tive a oportunidade de ser dirigido, ainda no Ciranda de Espetáculo, por Flávio Porto e Rogério Feolli. Após 02 anos de trabalho com a referida Cia., senti vontade de conhecer a linha de trabalho de outros grupos, descobrir novas possibilidades. Eis que, em 2005, tive a oportunidade de trabalhar na ÓPERA DO MILHO, espetáculo realizado pelo Governo do Estado, com direção de Moncho Rodriguez. Neste trabalho, tive contato com novas possibilidades corporais para o trabalho do ator, o que passou a ser meu interesse, além de estreiterar relações com outros atores, que se tornaram amigos bem próximos, com os quais passei a trabalhar. A partir da ÓPERA, fui convidado para trabalhar em RATOS DE ESGOTO, montagem da Cia. Usina de Teatro, a partir do texto de Vieira Neto, e com o Grupo IMAGEM. Com este último, iniciei um processo de montagem para BELO BELO, com o qual, infelizmente, nunca cheguei a me apresentar, por falta de recursos financeiros para as apresentações; e de O ROMANCE DO SOL COM A LUA, espetáculo infantil desenvolvido pelo Grupo. Em 2006, juntamente com o ator e amigo Amarildo Felix, participamos do curso de teatro oferecido pelo grupo Caixa Cênica no CULTART, passando a ter aulas com Diane Veloso e Babu. Em 2007, recebi convite do pessoal do grupo Oxente de Teatro, para atuar nos espetáculos existentes no grupo: O SANTO E A PORCA e O CASAMENTO SUSPEITOSO. Em 2008, fui um dos protagonistas de YERMA, drama de Federico Garcia Lorca, encenado pelo Grupo Fábula, após ter o projeto selecionado no programa Aracaju+Cultura, desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Aracaju.

6) Você se destacou por personagens intensos, a exemplo do protagonista de Yerma? E ctambém em comédia? Existe preferência?
Resp.: Confesso que tenho por preferência o drama, apesar de sempre me aparecerem personagens cômicos. Afirmo isso porque através dos conflitos vivenciados pelas personagens no drama, tenho oportunidade de melhor descobrir quem eu sou e aproveitar essa descoberta para a composição das minhas personagens. Porém, tendo que lidar com os dois, prefiro aqueles em que eu possa ser verdadeiro e me divertir com o que estou fazendo.
7) Você também é bailarino. A dança surgiu na sua vida como? Foi um complemento ao teatro que virou paixão?
Resp.: A dança surgiu em minha vida, primeiramente, através do Ewertton Nunes. Ator e bailarino sergipano que, em seus trabalhos, sempre procura aliar a dança e o teatro. Como o Ewertton também é professor de dança contemporânea, tive aulas com ele durante 03 meses. Porém, não era algo que reverberasse dentro de mim. Apesar de gostar da dança contemporânea como instrumento para o teatro, não era algo que eu me sentisse capaz de executar. Algum tempo depois, quando em processo de montagem com o grupo IMAGEM, ensaiávamos na sede do Portal Hanna Belly - Danças Orientais e a Diretora e Professora Cecília Cavalcante semrpe realizava uma parceria com o Grupo para as apresentações de final de ano da referida academia. No Portal Hanna Belly, são ministradas aulas de dança cigana, flamenco e dança do ventre e eu sempre me senti atraído por este tipo de dança. Era algo que me deixava contente, cheio de arrepios... Participei do espetáculo "Cartas Marcadas do Tarô", no ano de 2005; em 2006, já estava matriculada no Portal, fazendo aula de flamenco e dança cigana e não parei mais. A dança, sempre serviu para mim como um complemento do teatro, mas também precisava ser uma paixão, algo que fizesse sentido para mim, que fosse verdadeiro.
8) Porque a EAD?
Resp.: Tive conhecimento sobre a existência da Escola de Artes Dramáticas da USP - EAD/USP por causa do Tiago de Melo. Ele passou a estudar na escola em 2005. Antes dele, o Leandro Goddinho já tinha ido para Sampa para também estudar lá. Sempre senti uma carência de conhecimento teórico aqui em Aracaju e buscava obter isso para mim. Como já tinha conhecidos em São Paulo, além de familiares, optei pela EAD. Prestei o processo de seleção, primeiramente, no ano de 2006, porém, não obtive aprovação. E reconheço que, naquela época, não estava preparado psicologicamente para ir morar numa cidade como São Paulo... Após 03 anos, essa necessidade foi se acentuando, aliando-se a descobrir e vivenciar coisas novas no teatro e, quando eu pensava que as inscrições para a EAD já tinham se encerrado, recebi 03 comunicados da escola, via e-mail, informando sobre o prazo de encerramento das inscrições via correio. Recebi os e-mails em uma terça e o prazo finalizava na quinta. Efetuei o pagamento da taxa e encaminhei as documentações via SEDEX e, dias após, recebi a confirmação de que a inscrição tinha sido confirmada. Optei por não revelar nada a minha família nem aos amigos para não criar expectativas acerca desta minha "aventura" e acabou dando certo. Fui o único sergipano a participar do processo de seleção e o único nordestino aprovado para a turma 62.
9) Quais suas expectativas, como vc está se sentindo?
Resp.: Durante as 03 etapas do processo de seleção, percebi que, de fato, o que venho procurando, a EAD pode me oferecer. Embasamento teórico e prático para as minhas pesquisas teatrais, além de professores altamente compromissados com o seu trabalho. Sei que nem tudo serão flores durante estes 04 anos em que estarei estudando na EAD, porém, sinto-me preparado para enfrentar as dificuldades que surgirem pelo caminho. Não sou o primeiro sergipano a estar na escola e, junto com os outros, unidos pelo mesmo objetivo, seguiremos adiante. Além do que, contarei com a ajuda da minha família, que passou a respeitar a minha decisão (digo aceitar já que entender o porquê de uma pessoa deixar o seu conforto aqui para se arriscar em uma outra terra acaba sendo muito difícil) e de amigos.
10) E o curso de direito que você fazia? O emprego no Ministério Público, não dá medo de deixar?
Resp.: O curso de Direito nunca foi uma vontade minha, mas sim da minha família. Quando prestei a EAD pela primeira vez e não passei, as cobranças aumentaram... Afinal, apesar de estarmos prestes a romper o ano de 2010, ainda existem "ovelhas negras da família"... Escolhi pelo Direito por ser algo que dava para auxiliar no trabalho no Ministério Público, porém, não era algo em que eu me visualizasse trabalhando, advogando ou coisa do tipo. Trabalho no Ministério Público desde os 16 anos de idade. Houve um tempo em que tinha muito medo de deixar de trabalhar lá, iso por auxiliar nas despesas da casa. Mas, hoje, com 23 anos, não mais esse medo. Preciso viver aquilo que realmente faz sentido para mim, para não terminar meus dias como mais um frustrado que deixou de fazer o que queria para viver a vida de outros. Afinal, toda história tem o destino que merece e eu preciso ter o meu.
11) Você pode dizer algo aos colegas de Aracaju sobre essa sua conquista?
Resp.: Nestes 15 dias em que estive em São Paulo, no processo de seleção da EAD, deparei-me com muitas pessoas que se surpreendiam ao saber que eu era de Aracaju. Que se surpreendiam com a coragem de ter ido para São Paulo somente para prestar a EAD e, caso passando, largar toda a sua vida já estabelecida para viver uma nova... E é isso que nós, artistas sergipanos, precisamos mostrar. Mostrar para todos o quanto somos bons naquilo que fazemos. O quanto temos coragem de ousar, de criar, de lutar pela nossa felicidade. Em 2008, ninguém daqui de Aracaju foi prestar; em 2009, somente eu fui, espero que em 2010, tenhamos mais sergipanos concorrendo a uma das 20 vagas da Escola de Artes Dramáticas da USP. Evoé!


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Meu amigo Heitor... felicidades tudo de bom pra ti.... que essa sua realidade de agora..seja o começo para seu sucesso...e seja ETERNO .. VC MERECE..MUITO....
TE AMO BJOSS
Que maravilha!! Acho realmente o Heitor um cara danado e um ator de mão cheia. Valeu pedro ter nos presenteado com esta entrevista que entre outras coisas nos é um exemplo positivo. Afinal o descontentamento com algumas questões aqui da terrinha não paralisaram o Heitor, pelo contrário, o fizeram se obstinar mais em seu ideal. Que isso nos sirva de exemplo para várias questões de nossas vidas!
Deus abençoe e ilumine os caminhos de vcs!
RESPOSTA:
Ok, Andros... valeu sugira para o nosso blog ficar bem recheado